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Brás da Costa - canhões & colhões assinalados !

canhões & colhões assinalados !

 

 

 

"a proposito, não sei se sabes, mas a bisa tem um canhão à venda desde há anos ! trata-se de uma miniatura que quando lhe dá para disparar (acontece uma vez por ano e é uma festa !) o mais que se pode fazer co'a chama é acender um cigarro ou um conezinho de perfume chinês (muito mau prá saúde, dizem os dótores); quando da nossa estadia no PXO encontrámos um maiorzinho no cimo duma colina, estava à venda por tuta e meia, informou-nos um funcionário camarário que por lá se encontrava, acostado a uma vassoura muito usada que, volta e meia, se prestava para espancar a meia dúzia de flores muito deprimidas plantadas num canteiro meio depenado por obra e graça duma grande família de caracóis vorazes e algumas lesmas negras, asquerosas; o funcionário foi-nos comentando com uma voz de uma suavidade estranha : este ano, e ainda estamos no mês de julho, o meu chefe já não tem mais verbas pra comprar insecticidas & pesticidas, vejam lá pra onde a gente vai ?!... então é uma festa prós rastejantes... que medram por aí nos canteiros qu'é um vê se te avias! ... e já agora reparem nesta : precisava agora mesmo de meia dúzia de parafusos pra aferroar como deve ser a balaustrada que protege o pessoal do precipício e, imaginem, nem pra isso há !... [não se cheguem lá muito por perto...] ora, é por isso que pusemos à venda este canhão, mas ninguém lhe pega, é muito pequeno para bombardear daqui o jardim, e muito grande par servir de cinzeiro num apartamento de duas ou três assoalhadas, seria preciso uma coisinha maior... digamos, um palacete tão grande como o do bananeiro, tão vocemecês a ver ?!... o bananeiro tem palácio por aqui? perguntou a bisa fingindo de inocente, então não tem, dona ?! ainda não foram vê-lo ?!... a bem falar ainda não tem mesmo-mesmo, porque as obras estão paradas co'a crise, pelo que ouço dizer, mas que é palacete, é palacete a valer, palavra de honra, dona!... por aí é que haveria espaço de sobra pró canhão ! ficamos nesta do canhão uma boa horita e palavra puxa palavra, aconteceu que, incentivada aqui, encorajada acolá, pela verborreia do habilidoso funcionário, a bisa quis por fim experimentá-lo, e... calçava-lhe bem... c'o raio ! ficava-lhe mesmo a matar o estupor do canhão; tirámos uma fotografia, duas fotografias, três... (ó bisa, põe-te de cavalitas nele! anda filha... quanto mais não seja, ficámos com uma recordação pra mostrar à mana romão, sugeri-lhe a meia voz), ficámos então a medi-lo de longe, demos-lhe a volta por um lado e por outro sob o olhar reguila do funcionário; a coisa bem pensada... até podiam fazer um bom negócio! ...palavra! já pensaram no presente que poderiam oferecer à dona romão, ela que anda há anos com ganas de apertar os colhões ó pessoal da assembleia ?! vinha mesmo a calhar... (o funcionário lia-nos no pensamento, o finório...), continuávamos a matutar na transacção perplexos e pensativos : um canhão pra satisfazer os desejos altruistas & altifalantes da prima... que te parece?... vai, não vai ?!... e afinal acabámos por desistir, não tínhamos moedas suficientes e o funcionário não tinha troco pra uma nota de dez euros que acabámos por lhe estender num momento de fraqueza, apenas cinco c'roas prá aguardente de medronho, depois de almoço; mais tarde, já de volta no sidecar vermelho, numa curva muito apertadinha, a bisa comentou : sabes, ainda bem que não o comprámos, [aie.. vai devagar, filho! carago...] a ritinha não iria gostar e depois, só de pensar que tinha de levá-lo sozinha nas malas pra sarilhos grandes, lá pra outra banda ! só de pensar... já estou a ficar com uma dor de cabeça inconsolável ! valha-nos nossa senhora das taipas padroeira dos aflitos! estive quase para lhe voltar a contar a historia do necas, do nimas, dos canhões & dos colhões do navarone, mas retive-me a tempo, persuadido que seria uma vez a mais e motivo suficiente para pedir o divórcio, limitei-me a suspirar profundamente e a lançar aos quatro ventos insulares o meu grito de guerra preferido : aie meus peitos, tão pequeninos mas tão bem feitos!... deixámos no alto da colina o funcionário pensativo, com a vassoura debaixo do braço, um cigarro entre os beiços, totalmente entregue à sua leitura favorita do momento : "a conspiração dos imbecis", do malogrado John Kennedy Toole; cruzámos mais à frente o rui do gang dos cães da noite, montado numa bicicleta a pedal, que assoviava, descontraido na direcção do casino. E ainda falam do pessoa... ora ora!"

 

Brás da Costa



12/09/2012
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