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alexandre o'neill, meditação na pastelaria

MEDITAÇÃO NA PASTELARIA

 

 

 

Por favor, Madame, tire as patas,

Por favor, as patas do seu cão

De cima da mesa, que a gerência

Agradece.

 

Nunca se sabe quando começa a insolência!

Que tempo este, meu Deus, uma senhora

Está sempre em perigo e o perigo

Em cada rua, em cada olhar,

Em cada sorriso ou gesto

De boa-educação!

 

A inspecção irónica das pernas,

Eis o que os homens sabem oferecer-nos,

Inspecção demorada e ascendente,

Acompanhada de assobios

E de sorrisos que se abrem e se fecham

Procurando uma fresta, uma fraqueza

Qualquer da nossa parte...

 

Mas uma senhora é uma senhora.

Só vê a malícia quem a tem.

Uma senhora passa

E ladrar é o seu dever – se tanto for preciso!

 

                                    *

 

O pó de arroz:

Horrível!

O bâton:

Igual!

 

O amor de Raul é já uma saudade,

Foi sempre uma saudade...

(O escritório

Toma-lhe o tempo todo?

Desconfio que não...)

 

Filhos tivemos um:

Desapareceu...

E já nem sei chorar!

 

                                    *

 

Chorar...

Como eu queria poder chorar!

 

Chorar encostada a uma saudade

Bem maior do que eu,

Que não fosse esta tristeza

Absurda de cada dia:

Unha

Quebrada de melancolia...

 

Perdi tudo, quase tudo...

 

Hoje,

Resta-me a devoção

E este pequeno inteligente cão.

 

Por favor, Madame, tire as patas,

Por favor, as patas do seu cão

De cima da mesa, que a gerência

Agradece.

 

Alexandre O'Neill

 

            in No Reino da Dinamarca - 1958



02/12/2006
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