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josé afonso, coro da primavera

 Coro da Primavera
 
 
Ergue-te canalha
Na mortalha
Hoje o rei vai nu.
 
Os velhos tiranos
De há mil anos
Morrem como tu.
 
Abre uma trincheira
Companheira
Deita-te no chão.
 
Sempre á tua frente
Viste gente
Doutra condição.
 
Ergue-te ao sol de verão
Somos nós os teus cantores
Da matinal canção
 
Ouvem-se já os rumores
Ouvem-se já os clamores
Ouvem-se já tambores
 
Livra-te do medo
Que bem cedo
Há-de o sol queimar
 
E tu camarada
Põe-te em guarda
Que te vão matar
 
Venham lavradeiras
Mondadeiras
Deste campo em flor.
 
Venham enlaçadas
De mãos dadas
Semear o amor.
 
Ergue-te ao sol de verão
Somos nós os teus cantores
Da matinal canção
 
Ouvem-se já os rumores
Ouvem-se já os clamores
Ouvem-se já tambores
 
Venha a maré cheia
Duma ideia
P'ra nos empurrar.
 
Só um pensamento
No momento
P'ra nos despertar.
 
Eia mais um braço
E outro braço
Nos conduz irmão.
 
Sempre a nossa fome
Nos consome
Dá-me a tua mão.
 
Ergue-te ao sol de verão
Somos nós os teus cantores
Da matinal canção
Ouvem-se já os rumores
Ouvem-se já os clamores

Ouvem-se já tambores

 

José Afonso


 


28/12/2006
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