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manuel raposo - estrada fora

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Estrada fora (Ode à memória solúvel)

 

Na estrada de Yazd para Sul, à velocidade de um autocarro de turismo, o meu olhar é o de um viajante apressado que passa para não voltar. De súbito, um caminho amarelo de terra batida contorna um monte — e num volteio malabar logo desaparece para sempre da minha vista. Por um conhecimento geral, vago, mas por assim dizer universal, sei que foram pés e patas que o fizeram caminho como agora é, e rodas de carroças, motorizadas, carros, tractores, talvez camiões de longo curso. O seu destino é-me desconhecido porque eu sou um viajante que não pára. Mas o que o faz desaparecer da minha vista, para sempre, é o monte azul agreste que faz dele, do ponto de que o vejo ao passar, um caminho que contorna um monte que me esconde o seu destino. À força de outra suposição universal, cismo que o monte, embora de azul eterno, desaparecerá um dia, percutido por chuva, por vento ou mais drasticamente por martelo pneumático. Deixará então de ser o monte agreste que faz desaparecer da minha vista o caminho de terra batida que contorna o monte que agora existe. Mas nem por isso o destino do caminho deixará de me ser desconhecido porque é do azar de um viajante desconhecer o final dos caminhos que não escolhe e a que não pensa voltar. Também o caminho deixará de ser caminho, pelo menos, o caminho amarelo que desaparece da minha vista porque contorna um monte agreste e azul que me esconde para sempre o seu destino. Agora, porém, mesmo ao olhar breve de um viajante que passa, caminho e monte são coisas concretas. Concretas em si, e concretas na minha imaginação. Humanas, portanto, e inseparáveis, como siameses que partilham órgãos vitais — um coração único, estou certo. Faço questão que assim seja porque, por um átomo de tempo, esse caminho e esse monte, na sua condição de seres exilados, perdidos em luz branca, foram tudo o que do mundo me prendeu a atenção. Já longe, porque viajo a oitenta quilómetros por hora, na condição de visitante fortuito, quero crer que um outro olhar, cúmplice do meu, os guardará como eu guardei — tão só como modesto e ignorado caminho amarelo de terra pisada que contorna um monte azul escalvado que o faz desaparecer da vista dos viajantes que passam ao largo sem propósito de voltar. E que ainda outro olhar e outro e outro de certo modo os eternizem como memórias avessas à erosão, já que toda a realidade do mundo realmente existente é precária e branca aos olhos de um viajante que passa e não volta. Irão-Lisboa, Nov-Dez 2018



30/01/2019
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