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alexandre o'neill, a saca de orelhas

A saca de orelhas

 

 

Sentenças delirantes dum poeta para si próprio em tempo de cabeças pensantes

 

1

Não te ataques com os atacadores dos outros.

Deixa a cada sapato a sua marcha e a sua direcção.

0 mesmo deves fazer com os açaimos.

E com os botões.

 

2

Não te candidates, nem te demitas. Assiste.

Mas não penses que vais rir impunemente a sessão inteira.

Em todo o caso fica o mais perto possível da coxia.

 

3

Tira as rodas ao peixe congelado,

mas sempre na tua mão.

 

Depois, faz um berreiro.

Quando tiveres bastante gente à tua volta,

descongela a posta e oferece um bocado a cada um.

 

4

Não te arrimes tanto à ideia de que haverá sempre

um caixote com serradura à tua espera.

Pode haver. Se houver, melhor...

 

Esta deve ser a tua filosofia.

 

5

Tudo tem os seus trâmites, meu filho!

Não faças brincos de cerejas

sem te darem, primeiro, as orelhas.

 

Era bom que esta fosse, de facto, a tua filosofia.

 

6

Perguntas-me o que deves fazer com a pedra que

te puseram em cima da cabeça?

Não penses no que fazer com. Cuida no que fazer da.

 

É provável que te sintas logo muito melhor.

 

Sai, então, de baixo da pedra.

 

7

Onde houver obras públicas não deponhas a tua obra.

Poderias atrapalhar os trabalhos.

Os de pedra sobre pedra, entenda-se.

 

Mas dá sempre um "Bom dia!" ao pessoal do estaleiro.

Uma palavra é, às vezes, a melhor argamassa.

 

8

Deves praticar os jogos de palavras, mas sempre

com a modéstia do cientista que enxertou em si mesmo

a perna da rã, e que enquanto não coaxa, coxeia.

Oxalá o consigas!

 

(...)

 

11

Resume todas estas sentenças delirantes numa única

sentença:

Um escritor deve poder mostrar sempre a língua portuguesa

 

Alexandre O'Neill

 



02/12/2006
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