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eça de queiroz — carta de paris (VIII)

 

VIII

 

As eleições — A Itália e a França 

 

 

As eleições em França, celebradas no último domingo, foram talvez o mais sólido e completo triunfo que a democracia tem obtido nestes vinte anos: pelo menos foram a sua mais franca, mais positiva e mais corajosa afirmação.

Nessa abrasada manhã de missa, com efeito, o sufrágio universal consultado (esse sufrágio universal que ainda há pouco, em departamentos remotos, os homens de campo consideravam como um personagem vivo, vestido, condecorado, cheio de poder, de quem particularmente dependiam as leis do imposto e do serviço militar) começou por eliminar da representação nacional todos aqueles que, nos derradeiros tempos, se tinham erigido como paladinos da moralidade pública e limpadores valentes de cavalariças de Augias: e assim os que, durante a legislatura passada, se ergueram, na tribuna e no jornal, contra a corrupção parlamentar e financeira, como Drumont, Andrieux, Delahaye, etc., foram derrotados em todos os círculos, com um entusiasmo esmagador e jovial.

Feita esta primeira eliminação, o sufrágio universal passou a riscar cuidadosamente do parlamento todos os políticos profissionais e militantes, que, na direita ou na esquerda, faziam essa política negativa, só diluidora e desmanchadora, ocupada apaixonadamente, e com uma arte subtil, a embaraçar ministros e desorganizar ministérios.

E assim homens como Clemenceau e Cassagnac, que entravam na câmara com unanimidades triunfais, estão, se não já derrotados, pelo menos humilhantemente empatados, e prestes no - próximo domingo a voltar àquela ocupação tão justamente louvada pela sapiência antiga, e que consiste em cada um plantar as suas couves dentro do seu quintal.

Terminada esta segunda limpeza o sufrágio universal passou a expulsar da representação nacional todos os ideólogos, todos aqueles que procuram fazer a remodelação das formas sociais por meio de uma revolução nas ideias morais. E assim um nobre homem como o conde de Mem, o cavaleiro andante do socialismo cristão, é vencido na Bretanha, sua pátria espiritual, por um pequeno advogado bretão que, em vez de anunciar aos eleitores o próximo advento do céu sobre a Terra, lhes promete, muito comezinhamente, uma reforma do imposto rural.

Realizada esta terceira expurgação, o sufrágio universal passou a banir das câmaras, enojado, os artistas, os cinzeladores da palavra, os mestres inspiradores da oratória. «Basta de lira!», gritavam em 1848 os operámos famintos a Lamartine, uma tarde em que ele, na cadeira do hotel de ville estava arengando e sendo sublime. Toda a França industrial e agrícola repete agora o mesmo grito positivo. Basta de lira! Abaixo a eloquência! Fora a retórica e a sua rajada ardente!

E assim todos os grandes oradores contemporâneos da tribuna francesa ficam de repente sem tribuna e sem profissão, porque (caso único na história) a democracia rejeita definitivamente a eloquência como factor do seu progresso.

Tendo realizado estas sucessivas depurações, e repelido para longe, para os seus elementos naturais, os catões, os obstrutores, os ideólogos e os artistas, o sufrágio universal passou a eleger com cuidado e amor uma câmara bem mediana, bem ordeira, bem prática, bem positiva, toda experiente em cifras, superiormente conhecedora dos interesses regionais, capaz de trabalhar catorze horas nas comissões, e feita à imagem e para o útil serviço desta França nova que e simultaneamente um banco, um armazém e uma fazenda. Depois o sufrágio universal descansou – e viu que a sua obra era boa.

Com efeito é uma boa obra de democracia. Em primeiro lugar, todas as superioridades que podiam desmanchar e desnivelar a igualdade intelectual da câmara (e a igualdade deve ser o cuidado sumo de toda a democracia) foram eliminadas com aquela decidida franqueza com que o bom Tarquínio outrora cortava, no seu horto, as cabeças purpúreas e brilhantes das papoulas mais altas.

Na câmara não haverá senão espíritos médios e planos –e toda ela será realmente como uma longa planície, produtiva e chata, sem uma eminência, uma linha que se eleve para as alturas, moinho torneando ao vento ou torre airosa donde voem aves.

Depois todos os moralistas de moralidade rígida, e quase abstracta, foram suprimidos como incompatíveis com a realidade social, com os costumes financeiros de uma democracia industrial, com o regular e fecundo funcionamento dos negócios. O sufrágio universal entendeu que, para bem da democracia, de que ele é o motor inicial, o lugar destes homens, desarranjadores estéreis de todos os arranjos úteis, era não nos bancos de um parlamento, mas nas celas de um mosteiro, ou no deserto entre os santos que, como S. João, lá pregam por gosto e profissão.

Depois todos os ideólogos, os filósofos, os homens de altos sistemas sociais, que constantemente tentam introduzir nas coisas públicas Deus, a alma, o infinito, a bondade progressiva e outras entidades que lhes são inteiramente estranhas e prejudiciais, foram escorraçados como perturbadores impertinentes da boa ordem democrática, onde as massas disciplinadas, com os olhos praticamente postos em terra e na ferramenta, se devem ocupar unicamente de produzir bem e de vender bem.

E finalmente os oradores, os artistas, os poetas, foram, por este sufrágio universal e segundo o prudente preceito de Platão, ignominiosamente expulsos da república.

Estas eleições, pois, foram incontestavelmente uma boa obra de democracia. E por isso os jornais afirmam que a França purificada, enfim, e livre dos elementos mórbidos que a agitavam e debilitavam, vai entrar num período ditoso de estabilidade e de força fecunda. Amen.

Enquanto o sufrágio universal estava assim tonificando a república, um conflito entre operámos franceses e italianos, num departamento do Sul (em Aiguesmortes) veio avivar e exacerbar esta inimizade, mais política que nacional, que há anos vem crescendo entre a Itália e a França.

Foi a antiga história dos salários. O italiano emigra para a França, como emigra para a América, a buscar o trabalho cada vez mais difícil na Itália, que, à parte um bocado suculento da Sicília, e um pingue bocado da Lombardia, é toda ossos e montanha. Ou por ser de uma raça mais sóbria, ou de uma raça mais indigente, o italiano aceita salários muito inferiores aos do operário francês. Como ao mesmo tempo tem muita inteligência e muita destreza, é naturalmente preferido pelos patrões – porque o capital é cosmopolita. Daqui despeito, rancor do operário francês, ameaçado no seu pão – e constantes rixas, em que o italiano naturalmente puxa a faca, essa faca meridional que enche de horror e de asco os povos do Norte.

Foi o que aconteceu em Aiguesmortes, com a agravante lamentável de que um bando de italianos que, depois de uma tremenda batalha, se tinham refugiado numa mata, foram aí perseguidos pelos franceses, monteados como lobos e dizimados a tiro, um a um. Indignação imensa em toda a Itália. Manifestações em Roma, em Génova, em Nápoles. Assaltos aos consulados de França, ultrajes à bandeira da França. E, como nas Vésperas Sicilianas, o velho grito de «morra o Francês!», acompanhado agora, para maior ofensa, do grito novo de «viva a Alemanha!»

Os Franceses ainda podem tolerar magnanimamente que a Itália, que eles consideram como obra sua, feita pelas suas armas e com o cimento do seu sangue, berre: «Abaixo a França!» Há aí apenas, para eles, esquecimento e ingratidão. Mas não podem suportar que a Itália grite: «Viva a Alemanha!» Ai já há um desafio, e como uma afronta à dignidade da nação. De sorte que se os italianos assassinados em França indignaram a Itália – a indignação da Itália, sob esta forma oblíqua e quase irónica de entusiasmo pela Alemanha, indignou muito mais profundamente a França. E as duas nações estavam já assim, há duas semanas, em face uma da outra, quietas, mas penetradas de mútua hostilidade, tanto maior da parte da França quanto tem de ser, por prudência, silenciosa. Mas eis que agora, nestes últimos dias, a Itália praticou, para com o sentimento francês, um outro e supremo ultraje.

O imperador da Alemanha vem este ano dirigir as grandes manobras militares nas províncias francesas conquistadas. Alsácia e Lorena. E quem acompanha o imperador da Alemanha, como seu hóspede e aliado? O príncipe real de Itália. Ora, para os Franceses, esta presença do príncipe italiano na terra alsaciana é uma ofensa monstruosa. E é realmente uma ofensa?

Há aqui uma susceptibilidade, muito delicada, que é difícil criticar. Em boa verdade, hoje a Alsácia e a Lorena são geograficamente e administrativamente províncias alemãs como a Pomerânia ou o Brandeburgo: e não parece que, no facto de o príncipe da Itália ir a Estrasburgo haja maior injúria do que ir a Berlim ou a Leipzig. Além disso a sua presença não vai consagrar a conquista, que é um facto consumado há mais de vinte anos, e não precisa consagração. Acresce ainda que o imperador da Alemanha não vem à Alsácia e Lorena com intenções arrogantes de desafio: e o príncipe de Itália não está portanto colaborando tacitamente numa provocação alemã. Depois ele foi solenemente convidado a assistir às manobras alemãs, que se realizam por acaso nas províncias anexadas: e se o aceitar um convite para essa região é ofender a França, o recusar o convite seria, pelos mesmos motivos, insultar a Alemanha. Tudo isto é indiscutível. Mas o patriotismo, como o amor, não se raciocina, quando ferido. Para os Franceses a Alsácia e a Lorena são duas terras francesas que gemem sob a opressão. E o facto de o príncipe de Itália vir caracolar sobre esse solo vencido e dorido, ao lado do opressor, é para os Franceses uma afronta incomparável. De sorte que uma reconciliação entre a França e a Itália é hoje quase impossível, tanto mais que às questões de política se juntam questões de dinheiro (sempre irritantes), e a estas ainda uma outra questão sentimental de «gratidão», mais irritante que a de pecúnia.

Com efeito, a França pretende que a Itália esteja para com ela num perpétuo e enternecido estado de gratidão. E esta exigência da França tem o condão de enervar a Itália – de a enervar até ao desespero. É um facto psicológico bem conhecido (e Labiche superiormente o pintou numa das suas comédias geniais) que o libertado sente sempre um secreto tédio pelo libertador. Mas quando o libertador constantemente e garrulamente cita, lembra e celebra o benefício da libertação – não é tédio então, e intenso e vivo ódio que o libertado começa a nutrir pelo herói que o libertou. É bem natural – porque o fraco não pode esquecer o que o apoio trazido pelo forte foi uma demonstração pública e aparatosa da sua fraqueza. Todos aqueles que Hércules outrora veio salvar, com grande alarido e grande farófia, ficaram detestando Hércules.

Ora a Itália realmente tem sido libertada de mais pela França desde Carlos VII! E todas estas intervenções libertadoras lhe foram horrendamente caras, além de algumas delas lhe serem desoladoramente inúteis.

A de Napoleão I quase a arruinou, além de a anarquizar. E Napoleão III, que concorreu efectivamente para fazer o reino de Itália, voltou de lá bem pago em boas terras, com Nice e com a Sabóia. Mas além disso a França tomou o hábito arrogante e humilhador de afirmar que ela e só ela criou o reino da Itália, pela força das suas armas e do seu dinheiro, quando realmente a Itália pretende, e com razão, que ela sobretudo concorreu grandemente para esse resultado magnífico com o seu dinheiro, as suas armas, o seu patriotismo e a habilidade suprema dos seus homens de Estado. Nestas condições é fácil compreender a irritação dos Italianos quando os Franceses os acusam de ingratidão, e lhes lembram altivamente que se a Itália hoje é uma nação é porque assim o quis a França na sua magnanimidade.

 

Tudo isto vai levando a uma guerra. E é uma dor que duas nações como a Itália e a França se venham a dilacerar. Há aí o que quer que seja de semelhante a um parricídio. A Itália, é certo, nos seus velhos dias, tem sido ajudada – mas foi ela, na sua soberba mocidade, que nos fez a nós todos, povos da Europa ocidental, e nos civilizou e nos modelou à sua imagem. Ela é e permanecerá a Italia Mater, a mãe venerável das nações. Todos nós somos ainda religiosamente, e juridicamente, e intelectualmente, províncias de Roma. Quando a sua tutela política findou, nós ficámos ainda, e para nossa grandeza, sob a sua tutela espiritual. Ainda não há duzentos anos que, como derradeiro presente, ela nos deu a musica.

 

Eça de Queiroz

 



13/03/2007
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