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eça de queiroz — carta de paris (XIX)

 

XIX

 

João de Deus (os de Paris

a João de Deus)

 

 

A alma poética do povo português encarnou em João de Deus. E por esta encarnação, que o tomou um poeta ingénuo e profundo, infantil e sublime, se explica a sua vida e a sua lenda, a sua fluida e singela maneira de improvisador e rapsodo errante, os temas eternos e simples sobre que incessantemente se exerce o seu poder de idealização, a graça da sua melancolia e a suavidade da sua ironia, a viçosa duração dos seus versos, sobrevivendo a todas as evoluções da arte e do gosto, que tanto verso atiram para o lixo das literaturas, a luminosa facilidade com que cativa os espíritos mais primitivos, e ainda os mais saturados de cultura crítica; e enfim esta simpatia que irradia, por todos sentirmos nele como a expressão genuína dos nossos ideais nativos, e que hoje nos traz aqui, com ramos verdes, a cantar os seus louvores em romaria amorável.

João de Deus, o João (porque a popularidade eliminou os apelidos que o prendiam a uma família, e apenas lhe deixou um nome, como aos santos, que são de todos), não se sentiu poeta lendo os poetas. Exactamente como o povo, foi pela música, cantando à viola dos campos, que ele penetrou na poesia. As suas primeiras estrofes foram arrancadas, como soluços naturais, pela morte, pela injusta morte, a daquele «lírio delicado e frágil» que tão docemente se debruçava de uma janela da velha Coimbra romântica, e que murchou antes de abrir. Depois, muito naturalmente também – porque se uma flor seca, outras desabrocham e dão o seu pleno aroma –, cantou a beleza forte e o amor. Mas pelo amor facilmente se vai a Deus, e o seu génio poético tomou o hábito desse caminho transcendente, e por ele se passou a sua existência lírica, peregrinando da Terra ao céu, recolhendo do divino ao feminino, ora arroubado ante o poder do Senhor, ora ante a graça de dois olhos finos, de tal sorte que, na adoração contínua do seu verso, se confunde por fim Maria que está nos céus e aquela que fazia meia, sentada à porta do seu casal, com o peito redondo e arqueado.

 

Como de pomba farta e satisfeita...

 

E para ele, como poeta, não existiram mais senão estes dois interesses, a mulher e a divindade. A todo o seu século, a este fecundo e revoltoso século, permaneceu sempre alheio, senão pela inteligência, ao menos pelo sentimento. Nem a ruidosa deslocação de classes, nem as ilusões humanitárias da democracia, nem a conquista violenta dos direitos políticos, nem a obra grandiosa da ciência experimental, nem as audácias da mecânica, nem revoluções sociais, nem transformações espirituais –o comoveram ou tiraram um som à sua lira amorosa e sacra.

Menos ainda influíram na sua arte de cantar, essa passagem de formas novas que vão surpreendendo e mudando o gosto desde Lamartine até Verlaine. Como se fosse o primeiro homem, antes de nascerem outros homens, e começarem os livros, João de Deus ficou sempre fechado no seu Paraíso poético – com Eva e com Jeová. Mas pela nobreza dos seus instintos religiosos, pela força da sua rectidão intelectual, pelo sentir intenso da beleza –ele, sem passar pelos dogmas, procurou e por vezes encontrou a divindade; ignorando as Poéticas, realizou supremamente a poesia, e, sem atender às metafísicas, chegou, na sua obra e na sua vida, à pura verdade moral.

É pois bem justo, e útil para a dignidade pensante da nossa terra, que entre todos apontemos para este homem, tão poético como os poemas, murmurando, com a reverência e o amor do velho florentino: «Onorate l’altissimo poeta!»

 

Eça de Queiroz

 

Paris, 22 de Fevereiro de 1895.

 



15/03/2007
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