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jorge de sena — uma sepultura em londres

Uma sepultura em Londres

 

 

No frio e no nevoeiro de Londres

numa daquelas casas que são todas iguais,

debruça-se sobre todas as dores do mundo,

desde que no mundo houve escravos.

As dores são iguais como aquelas casas

modestas, de tijolo, fumegando sombrias, solitárias.

Os escravos são todos iguais também:

De Ramsés II, de Cleópatra, dos imperadores Tai-Ping,

de Assurbanípal, do Rei David, do infante

D. Henrique, dos Sartoris de Memphis, dos

civilizados barões do imperador D. Pedro II.

Ou das «potteries», ou da Silésia, de África,

da Rússia. (E o coronel Lawrence da Arábia

chegou mesmo a filosofar sobre a liberdade moral

dos jovens escravos com quem dormia.)

No frio inenarrável das eras e das gerações de escravos,

que nenhuma lareira aquece no seu coração,

escreve artigos, panfletos, lê interminavelmente,

e toma notas, historiando infatigavelmente

até à morte. Mas o coração, esmagado

pelo amor e pelos números, pelas censuras

e as perseguições, arde, arde luminoso

até à morte. — Eu quero ver publicadas

as suas obras completas — diz-lhe o discípulo.

— Também eu — responde. E, olhando as montanhas

de papéis, as notas e os manuscritos, acrescenta com

esperança e amargura — Mas é preciso

escrevê-las primeiro —.

Como têm sido escritas e reescritas! Como

Não têm sido lidas. Mas importa pouco.

Naquela noite — creiam — a neve inteira

derreteu em Londres. E houve mesmo

um imperador que morreu afogado

em neve derretida. Os imperadores, em geral,

libertam os escravos, para que eles fiquem mais baratos,

e possam ser alugados sem responsabilidade alguma.

O coronel Lawrence (como anotámos acima), com os seus jovens escravos,

também tinha um contrato de trabalho. Mais tarde,

criou-se mesmo a previdência social.

No frio e no nevoeiro de Londres, há, porém,

um lugar tão espesso, tão espesso,

que é impossível atravessá-lo, mesmo sendo

o vento que derrete a neve. Um lugar

ardente, porque todos os escravos, desde sempre todos

aqueles cuja poeira se perdeu — ó Spartacus —

lá se concentram invisíveis mas compactos,

um bastião de amor que nunca foi traído,

porque não há como desistir de compreender o

mundo. Os escravos sabem que só podem

transformá-lo.

Que mais precisamo Que mais precisamos de saber?

Jorge de Sena

(1962)



13/02/2007
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