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morte não é anomalia, anomalia é não pagar a renda de casa

morte não é anomalia,
anomalia é não pagar a renda de casa


 
 
A morte de José aconteceu em Poissy.

Poissy lembra imediatamente Peugeot, o grupo PSA Peugeot Citroën. Uma cidade na cidade : 180 hectares onde se fabricam 1500 automóveis por dia, onde trabalham 12 mil assalariados.
Ao redor, as torres e as bandas de alojamentos sociais HLM para os operários da fabrica, desterrados dos quatro cantos do mundo. De premeio muitos imigrantes portugueses.
 
Poissy, lembra o bafio e a indefinível tristeza das tardes preguiçosas de domingo, entrecortados pelos desafios de futebol. A equipa da casa é a equipa do patrão :  o FC Sochaux criado em 1928 por Jean-Pierre Peugeot num canto da fabrica, lá prós lados da forja ao abandono. Uma equipa para ocupar honestamente o lazer dos operários, o que não a impediu de vir a ser a primeira equipa de futebol profissional do país e de ganhar o campeonato da primeira divisão de 1934-35.
Nos nossos dias, a aliança industria automóvel & futebol conhece altos e baixos, forja novas alianças, mas não esmorece, os adeptos de futebol estão em continua expansão e o Estado ampara o grupo e o todo o sector para os ajudar a enfrentar a crise...
 
Poissy lembra a fervente e discreta família protestante dos Peugeot ligadas desde o inicio do século XIX à metalurgia. Nos finais do mesmo século, os Peugeot, agora engenheiros formados na célebre Escola Central, estavam à cabeça das aplicações da metalurgia à industria dos transportes :  bicicletas, triciclos, quadriciclos com ou sem motor, motos, automóveis...
Em 1889, a exposição universal de Paris vai permitir a Armand Peugeot  cruzar o caminho de Daimler, o inventor alemão de um motor a explosão e o império automóvel Peugeot... descola!
 
Poissy é um recanto industrial pardacento situado a 30 Km de Paris que lembra imediatamente os emigrantes portugueses atrelados dia e noite às cadeias de montagem automóvel, tal como Clermont-Ferrand lembra outros operários portugueses, escravos das cadeias de fabrico dos pneumáticos Michelin, tal como o grupo Bouygues lembra o lendário pedreiro português, força de trabalho despojada, disciplinada e barata, que do nascer ao pôr do sol, moureja, anónimo entre os anónimos, no meio do formigueiro das obras de todo o tamanho e feitio e das gigantescas empreitadas publicas do nababo da construção civil.
 
A morte do José aconteceu em Poissy. José Gomes Macedo, 62 anos, natural de Vila Verde. Pelos vistos não trabalhava na Peugeot, mas nas obras. Era um operário reformado da construção civil.
Vivia sozinho, abandonado de tudo e de todos. "Era um homem discreto, falava pouco e ouvia mal", disse à imprensa um vizinho de origem magrebina, habituado a trabalhar com outros portugueses. Alertados por um telefonema anónimo, os bombeiros foram encontrá-lo sentado num cadeirão. Estava mumificado. Morto há mais de dois anos, sem que alguém desse por ela. Os vizinhos bem se tinham queixado que cheirava mal no patamar do andar. Mas, ora ora ! isso de cheirar mal no patamar duma banda HLM para emigrantes... num arrabalde da cidade... não interessa nem ao menino Jesus. Depois, com o tempo, o mau cheiro acabou por desaparecer... a família daí e daqui, habituada ao silêncio, não estranhou... um silêncio a mais ou a menos, qual é a diferença?  Para pouca sorte do José, o homem era um bom pagador. A renda, paga por transferência bancaria automática, caía pontualmente nas caixas do gestor do grupo imobiliário social da cidade. De modos que tudo batia certo, isto é, tudo era banalidade e rotina.

Não havia, portanto, anomalia com o José. Anomalia só há com quem não paga a renda de casa a tempo e horas. Então sim, haverá algum motivo para alarme. 

Aconteceu em Poissy a meados do mês de Outubro de 2009.
 
M V
26 outubro 2008
 
source : http://www.jornalmudardevida.net/?p=1798



27/10/2009
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