albatroz - images, songes & poésies

albatroz - images, songes & poésies

natália correia, a recusa das imagens ecvidentes

A recusa das imagens evidentes

 

I

 

Rosa que só tens nexo

Fora da tua imagem:

Aqui és só reflexo

Do universo unido

No instante florido

Que ofereces aos que te olham,

Sem te ver, de passagem.

 

 

II

 

Girassol que na retina

Da planície se dissolve.

És a cor mais repentina

Da aragem que te envolve.

 

Girassol que só te viras

Ao que não te fica perto

E só giras porque giras

Sobre o teu eixo secreto.

.

Girassol que sem volume

Volume que sem contorno

No despegar-se resume

Só a pressa do retorno.

 

 

III

 

É um outono que não é outono.

Tampouco a estação por que se espera

Na dor de nos deixarem ao abandono

As ninfas que são flores na primavera.

.

No entanto nas coisas o segredo

De uma só alma põe a sabedoria

Dando à terra repouso no arvoredo

De que o cedro é a sagrada biografia.

 

 

IV

 

Há noites que são feitas dos meus braços

E um silêncio comum às violetas.

E há sete luas que são sete traços

De sete noites que nunca foram feitas.

 

Há noites que levamos à cintura

Como um cinto de grandes borboletas.

E um risco a sangue na nossa carne escura

Duma espada à bainha dum cometa.

 

Há noites que nos deixam para trás

Enrolados no nosso desencanto

E cisnes brancos que só são iguais

A mais longínqua onda do seu canto.

 

Há noites que nos levam para onde

O fantasma de nos fica mais perto;

E é sempre a nossa voz que nos responde

E só o nosso nome estava certo.

 

Há noites que são lírios e são feras

E a nossa exactidão de rosa vil

Reconcilia no frio das esferas

Os astros que se olham de perfil.

 

 

V

 

Há um cipreste que se dissimula

No dia que nos leva pela mão.

E entre brasas de sol que ardem na rua

Uma pomba que faz de coração.

.

Voa: uma linha recta para a lua

Em sonhos que nos levam de balão.

Perversidade de uma paz futura

Onde só chegaremos de caixão?

 

E nada nos recorda esse futuro

Escondido atrás das nuvens que trouxeram

Ao nosso rosto os olhos prematuros

 

Natália Correia

 

Das órbitas reais que nos esperam.



18/12/2006
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