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Alexandre O'Neill- Meditação na pastelaria

Meditação na pastelaria

 

 


Por favor, Madame, tire as patas,
Por favor, as patas do seu cão
De cima da mesa, que a gerência agradece.

Nunca se sabe quando começa a insolência!
Que tempo este, meu Deus, uma senhora
Está sempre em perigo e o perigo
Em cada rua, em cada olhar,
Em cada sorriso ou gesto de boa-educação!

A inspecção irónica das pernas, eis o que os homens sabem oferecer-nos!,
Inspecção demorada e ascendente, acompanhada de assobios
E de sorrisos que se abrem e se fecham
Procurando uma fresta, uma fraqueza qualquer da nossa parte...

Mas uma senhora é uma senhora.
Só vê a malícia quem a tem.
Uma senhora passa e ladrar é o seu dever – se tanto for preciso!

O pó de arroz: Horrível!
O bâton: Igual!

O amor de Raul é já uma saudade, foi sempre uma saudade...
(O escritório toma-lhe o tempo todo?
Desconfio que não...)

Filhos tivemos um: desapareceu...
E já nem sei chorar!

Chorar... como eu queria poder chorar!

Chorar encostada a uma saudade bem maior do que eu,
Que não fosse esta tristeza absurda de cada dia:
Unha quebrada de melancolia...

Perdi tudo, quase tudo...
Hoje, resta-me a devoção e este pequeno inteligente cão.

Por favor, Madame, tire as patas,
Por favor, as patas do seu cão
De cima da mesa, que a gerência agradece.

 

Alexandre O'Neill












18/02/2011
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