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alexandre o'neill, seis poemas confiados à memória de nora mitrani

Seis poemas confiados à memória de Nora Mitrani

I


Para ti o tempo já não urge,
Amiga.
Agora és morta.
(Suicida?)

Já Pierrot-vomitando-fogo
(sempre ao serviço dos amantes)
não entra no nosso jogo
como dantes.

Mas esse obscuro servidor,
que promovemos uma vez
(ainda eu não te dedicara
aquele adeus português...),

corre, lesto, como uma chama,
entre nós dois (o saltarim!)
e desafia-nos prà cama.
Esperas por mim?

 

II

Se eu pudesse dizer-te: — senta aqui

nos meus joelhos, deixa-me alisar-te,

ó amável bichinho, o pêlo fino;

depois, a contra-pêlo, provocar-te!

Se eu pudesse juntar no mesmo fio

(infinito colar!) cada arrepio

que aos viajeiros comprazidos dedos

fizesse descobrir novos enredos!

Se eu pudesse fechar-te nesta mão,

tecedeira fiel de tantas linhas,

de tanto enredo imaginário, vão,

e incitar alguém — Vê se adivinhas…

            Então um fértil jogo amor seria.

            Não este descerrar a mão vazia!

 

III

Sê como és : o sol é bom,

o ar vivaz

Do azul aos azuis, do verde aos verdes,

a terra é menina e o tempo rapaz.

 

Também tu és menina

(um bichinho rebelde, de tão natural!)

e correr descalça era mesmo o que querias,

mas seria indecente nesta capital...

 

E enquanto, doutro verde possuido,

em versos me explico, bem ou mal,

à primavera corres, já descalça,

por uma relva ideal!

 

IV

Passam os anos a caretear...

Com ou sem sorte,

não será tempo de viver, de amar,

de resistir à morte?

 

Ouve amor-o-eterno e o que ele diz

a quem se dá.

Não esperes pelo tempo : sê feliz

que a felicidade é já!

 

E a felicidade é esse rosto eleito

por ti,

é esse palmo de ternura e o jeito

com que sorri.

 

E a felicidade é a melancolia

que nesse rosto existe,

quando te quer dizer que só por ele

é bom estar triste...

 

Passem, então, os anos a deitar-nos

línguas de fora...

Se morrermos será de nos amarmos

em cada hora !

 

Mais um ano de esperança? Não o queiras

se a esperança é adiar,

e vive-o como se fosse a vida inteira

se tiveres de esperar!...

 

V

Eu estava bom p'ra morrer

nesse dia.

Não tinha fome nem sede,

nem alarme ou agonia.

 

Eu estava tal como está

esse que perdeu a amiga,

o homem que sofreu já

tanto (nem se imagina!)

 

que ficou bem atestado

de fadiga

e copiou-se em alegre,

mas de uma torpe alegria,

 

que não era mesmo alegre,

mas alegre se fingia

só para enganar o morto

que dentro de si trazia.

 

Este é um modo de dizer

em que ninguém acredita,

mas não sei melhor dizer :

era assim que eu me sentia!

 

A solidão o que era?

O amor o que seria?

Já ninguém à minha espera,

para nenhures é que eu ia.

 

Eu estava bom pr'a morrer

— e ainda hoje morria...

Assim me quisesses dar

e tirar — só tu! — a vida.

 

VI

A que vens, solidão, com teu relógio
de ponteiros de visgo, de bater de feltro?
Ombro nenhum ao meu ombro encostado,
a que vens, ó camarada solidão?

Companheira, amiga, até amante,
até ausente, ó solidão, te amei,
como se ama o frio até o frio dar
a chama que tu dás, ó solidão!

A que vens, enfermeira? Não sabes que estou morto,
que se digo o meu sim ou o meu não
é só para que os outros me julguem mais um outro,
é só para que um morto não tire o sono aos outros?

A que vens, solidão? Vai antes possuir
os que amam sem esperança e sem saber esperam,
dá-lhes o teu conforto, encosta-lhes ao ombro
o teu ombro nenhum, ó solidão!

Alexandre O'Neill

in Poemas com endereço (1962)



18/12/2006
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