albatroz - images, songes & poésies

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brás da costa — união livre

União livre

 

I

A terra é mixta : empresários de mil ofícios fazendo o pino pela matina, mestres de Babel engalinhados nas caves, advogados molejões garçoneadores de doutos juizes sem armas de plega, mas mui força na língua.

Curas sem sotainas, tosquiadores de zotes mansos, peritos em contradanças e rijas de palitos nas capelinhas, ermidas e outras lojas de verdasco.

Curas aguzando sempre o xico na penumbra dos palios, de floritas nos beiços para enrolar uma graceta prendada, de virtude traçada, branco ao peito, descobrindo de repente fiat lux! a purpura do porrete do arcanjo Gabriel.

Depois, choros, lamentos, suores e aflições, partos clandestinos. Mas uma profícua herança desterra à luz do dia, malezas, dores de cornos, amores de perdição, promessas sebastianísticas, profecias de Cassandra, chefes de esquadra, esquartejadores de enteadas e mesmo um puto loirito parecido com o padre-amado.

O cura bendizidera : mater dei, gratia plena... brizando o modelar do polegar entre o umbigo e a friza carismática do triangulo das Bermudas sussura no ouvido da bela : erunt duo in carne una... A donzela aquiesce : con eso hablas latin, tan à punto que es placer. Placer, o verbo sanhoso de dias defuntos da Gomorra mercantil, maquinista, minguada, enechada pelas gerações.

II

Nos prados verdejantes já não retozam cordeiros, mas janotas mui ufanos, logrados por donzelas despuceladas, mas ricas, festejam em bodas e bacanais nos nights costeiros em vanas convivências. Parece verão com flores e rosetas todos os dias do ano...

Outros, no pelouro todo o fio da semana vestidos de atilhos domingueriros com seus manguitos estreitos, arrebitam cachimbo no oratório republicano : requebrejam de senhorias, de excelências, de meretíssimos, de digníssimos, de doutores em medecina e outras mézinhas.

Lançam fumaças e outras democráticas venturas aos pagantes asmados de tanto correrem atrás da rolha. Explicam, pontificam, arrotam, anotam e muitas vezes verificam que tal baldio, moradia, terreno construtível do círculo opusdeiano, leonino ou rotarista, não se afaste da vista.

III

Já não há linho, algodão mingua e fio em busca afanoza se moem sarilhos, pecadilhos e muita gasolina, pois, mestre Gil, desconheces concerteza, o cavalo branco já não repasta em coutadas ultramarinas e muito menos brasileiras.

Agora é tudo estufa e plástico, cabedal potreico, algumas facas e garfos, muita malha e alguns trapilhos que teares sibilinos, mulher e criança, criança e mulher, lidam dia e noite, noite e dia, por magra paga, c'os negócios da CEE não dão pra mais! — apregoam senhoris em tónica acordada nas assembleias gremiais, albardados de estritas jaquetas, por mãos alheias feitas, donde espreitam panças grávidas de gordorosos e farinhentos manjares com que taverneiros alumbrados muitos mil reis arrecadam.

IV

No descampado face à lua, a viúva desdentada arrimada à enxada cata o horizonte de mão em pala sobre os olhos cansados de lamentos, pragueja a stella matina que anuncia novo alvôr sobre a muda natureza.

Depois arregaça as mangas, pernas entumidas, alomba a montura e esburaca esburaca covas longas, profundas em terreno mingado lança sementes, dentes serrados, roga deus e o diabo, que venham mafarricos, coriscos e outras bestas comer-me a carne, os ossos, os nervos consumidos : que este céu azul se vele de vez, que o dia em noite convertido me cerque de panos, m'enfeite d'engodilhos.

Ó dia favorecido de memorável coroa que este malviver estoire de repente ! Eu me morro aqui da fortuna vencida, d'adversidades permentes, insegura na tormenta, sem porta na hora.

V

É assim o negócio. Uns têm para maravilhar o parceiro ao volante de máquinas de empreiteiro. Outros, aos caídos, encobrem a vilania com muito fado, futebol e algumas missas, poucas, porque esse tal garçon, invisível e visível, mortal e imortal, móvel e imóvel ...esfumou-se em abrilada precoce.

Sim , Gil bendito, o teu cordeiro loado em versos bem arrimados, qui tollit pecata mundi, foi-se desta para melhor. Deste mundo perigoso, sem repouso, que nos tràs a todos brulados, cegos, mal aconselhados, desviados, desvairados.

Brás da Costa

11 Setembro 1986



25/10/2007
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