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eça de queiróz — carta de paris (XIII)

 

 

 

XIII

 

  — Os anarquistas — Vaillant

 

Desde que nos não vimos, caros colegas e amigos, este velho mundo foi de novo abalado por uma bomba anarquista, a bomba de Vaillant.

Esta, porém, não causou os estragos em pedra e cal da bomba já clássica e quase simbólica de Ravachol: nem fez também a devastação mortal da bomba espanhola do teatro de Barcelona.

A bomba de Vaillant apenas deteriorou alguns veludos de poltronas e pedaços de estuque dourado; e o único ferimento perigoso que causou (e hoje curado) foi o de um primo intelectual do anarquismo, de um socialista neocristão, o doce abade Lemire. Mas espalhou um terror mais intenso que a de Ravachol ou a dos espanhóis, porque, pela primeira vez, a sociedade sentiu a temerosa dinamite arremessada contra um dos seus grandes órgãos vitais, contra o centro regulador das suas funções, contra o parlamento! As outras bombas só pretenderam destruir prédios ricos, como sendo as formas mais materialmente palpáveis do capitalismo – ou então burgueses abastados, no acto de gozarem um luxo que ofende especialmente a miséria, o da Opera. A bomba de Vaillant, porém, estoura com imprevista audácia sobre o seio augusto da representação nacional». Numa república parlamentar, o parlamento é o rei. Portanto Vaillant verdadeiramente cometeu um regicídio. E não há crime que impressione mais do que o regicídio, porque numa sociedade onde se não eliminou inteiramente a ideia de que o chefe é pai, ele participa da natureza do parricídio.

Decerto sabem pelo telégrafo. pelos jornais, a história do feito. No Palais Bourbon. estando a câmara em sessão e um deputado na tribuna, Vaillant atira a sua bomba, composta de pregos e pólvora verde, dentro de uma caixa de lata, que bate numa coluna, estala no ar antes de cair. Densa fumarada, gritos, terror, tumulto – e imediatamente, também, entre os deputados, aquela serenidade corajosa, ainda que um pouco afectada, que é uma tradição das assembleias francesas, acostumadas desde 1789 a ser invadidas, assaltadas e mesmo espingardeadas pelas plebes em revolta. Todas as portas do Palais Bourbon se fecham – e as salas de comissões são convertidas em ambulâncias, onde, sobre colchões trazidos à pressa de um quartel, os feridos recebem curativos sumários. Entre esses feridos há um, com pregos espetados nas pernas, que hesita ao dar o seu nome e o seu endereço, e que desperta portanto o faro embotado da polícia. E conduzido ao hospital por dois agentes que se estabelecem ao lado da cama, e começam com ele, amigavelmente, uma conversa hábil sobre anarquistas e fabricação de bombas. O ferido, por um desses impulsos de vaidade bem francesa, bem humana (e que Balzac se deleitaria em notar), alardeia logo o seu conhecimento íntimo com os chefes do anarquismo e com os processos empregados na composição das bombas. Os outros encolhem os ombros, negam a sua competência. E o homem, irritado com a contradição, termina por gritar:

– Pois bem, fui eu! Fui eu que deitei a bomba! Viva a anarquia! E agora não me macem mais que quero dormir.

Era Vaillant. E sabem, decerto, também, que foi condenado à morte – por um júri que se mostrou feroz, para que em Paris, e sobretudo no seu bairro, não o supusessem medroso. O que é ainda bem francês e bem humano.

 

A bomba de Vaillant e a sentença que condena Vaillant à morte, sendo dois actos no fundo idênticos porque ambos procuram aniquilar um princípio pela violência – são também dois actos absolutamente inúteis.

Num crime como o de Vaillant entram, em resumo, três impulsos ou motivos determinantes. Primeiramente há um desejo de vingança, todo pessoal, por misérias longamente padecidas na obscuridade e na indigência. Há depois o apetite mórbido da celebridade – como o prova o facto de Vaillant, nas vésperas de lançar a bomba, se ter fotografado, numa atitude arrogante, voltado para a posteridade. E enfim há o propósito de aplicar a doutrina da seita, que, tendo condenado a sociedade burguesa e capitalista como único impedimento à definitiva felicidade dos proletários, decretou a destruição dessa sociedade. Só este lado sectário do crime particularmente nos interessa relativamente à sua inutilidade. (Porque, pelos outros dois lados, o acto não foi inútil, visto ter Vaillant realizado a sua vingança e alcançado a sua celebridade.)

Aqui temos pois Vaillant, como anarquista, com a sua bomba na mão, preparado a demolir, para vantagem do proletariado oprimido, um bocado da sociedade que o oprime, alguns dos seus membros mais activos e potentes, e portanto, para ele, mais opressores. Lança a sua bomba – e suponhamos que, causando um máximo inverosímil de destruição, ela mata os seis ministros, aniquila os quinhentos deputados, e arrasa o edifício do parlamento! Que sucederia? Que vantagens traria este feito estupendo ao proletariado escravizado, e que prejuízos causaria à sociedade escravizadora? Primeiramente espalhar-se-ia por toda a Europa um terror, uma comoção maiores (porque hoje somos mais sensíveis, e o telégrafo e a reportagem dão um alimento mais pronto e mais abundante a essa sensibilidade) que a comoção e o terror causados pelo terramoto de Lisboa em 1755. Depois, imediatamente, o poder executivo, que não fora demolido, nomearia um ministério em substituição do ministério assassinado; e esse novo ministério, mesmo assumindo provisoriamente a ditadura, fixaria uma data para que a nação elegesse uma câmara nova em substituição da câmara desbaratada. Em seguida a França faria aos mortos funerais magníficos. Vaillant seria guilhotinado, visto não existir, mesmo para crime tão prodigioso, pena mais completa que a guilhotina.

O Governo decretaria terríveis leis de repressão e, com o apoio entusiasta do país todo, os anarquistas seriam perseguidos, em montarias, como lobos. O Estado reedificaria o edifício do Parlamento com condições mais seguras, e com linhas decerto mais belas. E finalmente de novo a câmara se reuniria no seu novo edifício, e o tempo, que é um grande apagador, iria apagando a impressão pungente da catástrofe, e os pobres sofreriam as mesmas necessidades, e Rothschild gozaria os mesmos milhões, e a sociedade burguesa e capitalista continuaria o seu movimento sem ter perdido um átomo do seu capital e do seu burguesismo. Do feito horrendo só restariam, pelos cemitérios do Père-Lachaise ou de Montmartre, algumas viúvas chorando. E o proletariado anarquista que teria conseguido? O ódio insaciável dos egoístas, a des-confiança dos próprios humanitários. E teria ainda logrado criar, para sua confusão e maior humilhação, ao lado da classe já desagradável dos mártires da liberdade, a classe, ainda mais desagradável, dos mártires da autoridade. De sorte que estas bombas arremessadas contra a sociedade, mesmo quando tivessem meios destrutivos que são hoje ainda inconseguíveis com a nossa limitada ciência, nunca passariam, relativamente à força e estabilidade dessa sociedade, de actos impotentes e tão inúteis como bolhas de sabão lançadas contra uma muralhas.

A isto replicam os anarquistas: «Assim é, mas nós não pretendemos destruir, desejamos só aterrar! Raciocínio vão. O que significa, neste caso, aterrar? Significa provar, pela experiência de uma pequena destruição, a possibilidade de uma destruição imensa. Significa inspirar à burguesia, demolindo-lhe um prédio e matando-lhe três membros, o terror de que lhe possa ser arrasado um bairro e desfeitos em estilhas três mil dos seus mais beneméritos. Mas está comprovado que, por maiores que sejam essas devastações pela dinamite, mesmo quando subitamente por uma delas pudesse desapa-recer todo o poder executivo e todo o poder legislativo, os milhões de burgueses que governam e que conservariam intactos o seu exército, o seu ouro, todas as suas forças, não consentiriam em abdicar de direitos que eles consideram como quase divinos e os únicos capazes de manter ordem e segurança nos agrupamentos humanos. E a eterna inutilidade do regicídio, que, matando o homem, não mata o sistema.

O niilismo russo experimentou essa inanidade da violência: um czar era assassinado, logo outro era coroado, que do próprio crime cometido sobre o pai parecia tirar um acréscimo de força e como uma nova sanção. Por isso Proudhon, que o anarquismo venera como um de seus santos-padres, pregou constantemente contra o tiranicídio, contra as tendências tiranicidas dos jacobinos do Segundo Império (hoje homens de poder e autoritários), como pregaria, se vivesse, contra a bomba dos anarquistas, por constituir uma outra forma de tirania e ser sobretudo um tão lamentável desperdício de energia heróica.

Mas, por outro lado, se a bomba de Vaillant, e de muitos Vaillants, é impotente para arrasar, ou mesmo aterrar eficazmente, a sociedade burguesa – a sentença que condena à morte os Vaillants é impotente para suprimir ou sequer assustar o anarquismo. Com estas sentenças, inspiradas por um dever e por uma esperança, o dever fica decerto cumprido porque o criminoso fica castigado; mas a esperança não se realiza, porque nem os anarquistas diminuem, nem se tomam mais raros ou mais tímidos os seus assaltos contra a sociedade. Pelo contrário! Está demonstrado, e pela própria polícia, que, desde as primeiras bombas e portanto desde 'as primeiras repressões, o número dos anarquistas tem crescido na proporção formidável de um para mil; e enquanto que a primeira bomba foi lançada contra um simples prédio, a última é já arremessada contra o próprio parlamento em sessão, exercendo soberania. O que era um bando está organizado em seita.

E ódios dispersos, operando sem método e sem dogma, fundiram-se numa religião (ou, se quiserem, numa heresia) em que o ódio decerto é ainda um factor, mas em que é um factor maior o amor, o amor dos miseráveis e dos oprimidos, e que, portanto por este lado, tem uma grande força de propaganda e uma segura condição de vitalidade. Sobre esta seita, a que bem podemos chamar religiosa (ou, se querem, herética) as sentenças de morte não têm acção, porque não fazem mais que vibrar um golpe unicamente material sobre o que é imaterial, a crença, e assemelham-se portanto a cuti-ladas atiradas ao vento. A guilhotina decepa uma cabeça, mas não atinge a ideia que dentro residia. Durante um momento, decerto, à força de buscas, de prisões, que são o acompanhamento usual da sentença, a seita fica desorganizada, desconjuntada – mas para imediatamente se reorganizar além, mais numerosa, mais fanatizada, por isso que vem padecer uma perseguição. Tais sentenças não têm senão o efeito desastroso de criar mártires. Ora não há semente mais fecunda que uma gota de sangue de mártir, sobretudo quando cai num solo tão preparado para que ela frutifique, como é a alma especial dos humanitários que chegaram à exacerbação do humanitarismo, não por teoria, mas através de realidades dolorosas e de uma experiência constante das misérias servis. Pense-se o que será (quando um Vaillant é guilhotinado) uma reunião secreta de anarquista, dos verdadeiros, dos puros, desses milhares de operários de coração generoso e exaltado, para quem o anarquismo é a verdadeira redenção da humanidade, e que admiram no homem que se sacrificou por essa ideia santa um mártir do amor dos homens! O júri só viu o bruto que quis matar: eles só vêem o justo que quis libertar. Numa tal reunião, onde cada um traz a sua cólera e a sua maldição, é inevitável que alguma alma mais violenta se inflame, apeteça também o martírio, e corra dali a fabricar a nova bomba que, na sua ilusão quase mística, concorrera a remir o proletariado. Aqueles que não podem morrer pela causa querem ao menos sofrer de algum modo por ela, e pela sua justiça. Entre os anarquistas presos recentemente havia um que se fizera gerente responsável de um jornal anarquista só para ter a glória, o prazer espiritual de sofrer os meses de prisão em que os redactores incorressem pela violência das suas imprecações. Por isso o anarquismo, como a primitiva seita cristã, tem já os seus Actos dos Mártires. A vida e suplício de Ravachol andam escritos e são meditados como o mais puro exemplo da fé e da confissão anarquista. Todos os objectos que pertenceram a Ravachol ganharam o carácter augusto de relíquias. Há um cântico a Ravachol – a Ravachole. E cada coração anarquista lhe é um altar.

As perseguições, as execuções, em lugar de diminuírem a seita, só lhe comunicam uma veemência mais devota e portanto mais perigosa. E quando a sociedade mata os anarquistas – é a sociedade que fabrica as bombas.

A violência não cura – e o anarquismo é uma doença. O anarquismo é uma exacerbação mórbida do socialismo.

O germe e os desenvolvimentos desta doença não são difíceis de precisar. No Antigo Regime, o proletário, mantido em servidão dentro de uma organização social muito forte, colocara a sua esperança de felicidade, não já nesta vida que ele via irremediavelmente votada à pena, mas na outra vida, para além da campa, como lho recomendava a Igreja, sua mãe e sua educadora, dando-lhe como garantia a promessa de Jesus que reservava para os pobres o reino do céu.

Neste nosso século, porém, o proletário, doutrinado pela classe média que se tornara desde 1789, em substituição à Igreja, a sua nova educadora, começou a acreditar que, sendo homem, e tendo portanto todos os direitos do homem, poderia realizar a sua felicidade ainda em vida, neste mundo, e sob a garantia de leis. Para isso, segundo lhe afirmava a classe média, bastava que ele demolisse o velho edifício social, a monarquia e as instituições monárquicas, que constituíam o único obstáculo à «felicidade das massas». O proletário, convencido, saiu em tamancos dos seus velhos covis e começou a destruir. Fez três revoluções, ergueu barricadas inumeráveis, exilou reis, incendiou castelos, aboliu privilégios – e pediu em gritos, e com as armas na mão, todas as reformas e liberdades políticas que a classe média lhe indicava ao ouvido e que deveriam realizar essa felicidade terrestre tão largamente anunciada. Enfim, ao cabo de setenta anos de lutas, o povo, tendo arrasado o velho edifício da monarquia, construiu o novo edifício da república, cheio dos confortos e invenções novas da civilização política, a liberdade de reunião, de associação, de imprensa, e todas as outras entre as quais, bem agasalhado e bem provido, senhor seu, ele começaria enfim a conhecer a ventura de viver. Assim soberbamente instalado, esperou. Os anos passaram. A felicidade anunciada não veio. Apesar de todos aqueles confortos políticos (liberdade disto, liberdade daquilo), continuava, como no antigo edifício feudal, a ter fome e a ter frio. Quando chegava a neve, o direito de voto não o aquecia – e à hora de jantar, a liberdade de imprensa não lhe punha carne na panela vazia. Pelo contrário, reconheceu que, apesar do nome de «soberano» que lhe tinham dado, continuava na realidade a ser servo – e que o seu novo amo, o burguês capitalista, era muito mais exigente e duro que o antigo amo que ele guilhotinara, o fidalgo perdulário. Todas as suas barricadas, pois, e todas as suas revoluções tinham sido feitas em proveito da classe média, que lhe metera as armas na mão, o impelira ao assalto do Velho Regime! O seu sangrento esforço só servira para entregar o poder à classe média, que se aproveitava desse poder, não para dar ao proletário dentro do novo regime a sua legítima parte de bem-estar, mas para lhe explorar o trabalho como lhe explorava a cólera, e fazê-lo esfalfar para o seu enriquecimento material, como o fizera combater para o seu engrandecimento político!

A decepção foi tremenda – e tremendos o ódio, o desejo de vingança contra o traiçoeiro burguês. A parte mais inteligente, mais pacífica, ou mais legal do proletariado concebeu logo a necessidade de fazer uma outra e derradeira revolução, não contra a estrutura política da sociedade nova mas contra a sua organização económica, porque não era agora por causa do regime político que o proletariado sofria, mas por causa do regime económico, nascido das invenções mecânicas, das descobertas químicas, dos excessos de produção, da concorrência de todos os progressos do século, realizados só em benefício da classe média, e cada vez mais tendentes a separar as duas velhas «nações» de Aristóteles, os pobres e os ricos, atribuindo a uma todos os proveitos e impondo à outra todas as fadigas. Desde esse momento nascera, ou aparecera, organizado na república, o socialismo.

Uma outra parte, porém, do proletariado, a mais inculta ou a mais violenta, ou simplesmente a mais naturalista, concebeu uma outra ideia, e estranha. Para essa, a revolução económica pregada pelo socialismo e concebida ainda dentro de um funesto espírito jurídico é ineficaz, quase pueril, porque não atinge o mal! Associações, trade unions, barateamento do capital, seguros de velhice, reclamação para o domínio social dos serviços colectivos, regularização da concorrência, etc., etc., todas essas reformas revolucionárias tentadas pelo socialismo são tigelas de água morna deitadas sobre uma gangrena. São ainda subterfúgios traiçoeiros do horrendo burguês. O mal, o verdadeiro mal que é necessário extirpar, é a própria ideia de direito, de lei, de autoridade, de Estado.

O homem nasceu livre como nasceu bom, e próprio para ser feliz: e todavia por toda a parte está escravizado, e pena sob essa escravidão. Mas quem o escraviza, quem o faz penar? A sociedade, com toda a sorte de peias, de estorvos que se opõem à livre expansão da natureza humana, que é fundamentalmente e inatamente boa, e que não poderia nunca ser senão um radiante progresso do homem no sentido do bem. Esses empecilhos odiosos são as leis, a autoridade, o Estado. A própria moral é, como o direito, fictícia, e um outro jugo imposto ao homem. Tudo isso pois tem de ser destruído, para que a nova humanidade realize, na absoluta liberdade, a absoluta felicidade. Mas como a sociedade está irremediavelmente impregnada desses funestos conceitos, que são a sua alma, e o seu princípio de coesão, é inútil fazer revoluções para a transformar ou melhorar; porque, qualquer que seja a forma que se dê à sociedade, ela conterá sempre em si o vírus horrível – o princípio do direito, de Estado, de autoridade!

A única solução portanto é arrasar completamente a sociedade, matando e sepultando para sempre sob os seus destroços esses princípios fatais que até agora a têm governado, e depois recomeçar de novo a história desde Adão. E a sociedade tem de ser destruída, em bloco, toda ela, sem se empurrarem para um lado os culpados, e sem se resguardarem para outro lado os inocentes. No mundo actual não há inocentes. Decerto existe uma classe mais especial e odiosamente criminosa – a classe dos ricos, que foi quem concebeu, para seu proveito, e contra os pobres, esses estorvos morais e sociais que se chamam direito, autoridade, Estado, e que são a causa de todo o mal humano. Mas a sociedade inteira é solidária e responsável do mal. Todo aquele que pacificamente se aproveita da protecção das leis é tão culpado como o monstro que inventou as leis. E uma costureira que se priva de apanhar uma flor num jardim público é já uma cúmplice da sociedade, porque, pelo seu consentimento tácito, ela concorre a que se perpetue o despotismo do regulamento. E pois necessário destruir tudo – e atirar indiscriminadamente a bomba redentora contra as classes exploradoras, contra as classes voluntariamente exploradas, contra a cidade onde se realiza a exploração, contra as próprias crianças que nascem, porque elas já trazem em si o vírus da submissão explorável.

Tal é em resumo, muito em resumo, a teoria do anarquismo.

Basta que ela seja enunciada para que se lhe reconheçam logo todos os sintomas de uma alucinação mórbida. Não há nela proposição que não seja quimérica. Uma só é exacta, aquela pela qual o anarquismo se prende ao socialismo, e que estabelece, com razão, que a presente organização social, em que uma classe possui todos os gozos e outra sofre todas as misérias, é iníqua.

Partindo do facto desta grande e atroz injustiça, o anarquista começa, logo que dele se afasta, para lhe procurar a causa e a cura, a delirar. Delira quando, ao procurar a causa do mal, a encontra no princípio do direito: e delira ainda mais quando, ao procurar a cura do mal, a entrevê ou, antes, claramente a vê, na destruição da humanidade pela dinamite. O anarquista é pois, no fundo, um socialista que caminhou seguramente, por um caminho racionável enquanto foi, como socialista, acusando a organização da sociedade – mas que depois, ou impaciente desse lento caminho jurídico, ou cedendo aos impulsos de uma natureza desequilibrada, deu um grande salto para fora da realidade, rolou no absurdo e, cabriolando através de uma metafísica insensata, veio cair miseravelmente em práticas de uma ferocidade selvagem.

Há pois razão para dizer que o anarquismo é uma doença, uma exacerbação mórbida do socialismo.

Mas como é que esta seita de doentes, tão disparatada na sua doutrina e tão impotente nos seus meios de acção (o que obsta sempre à eficácia de qualquer propaganda), se mantém e alastra na proporção de um para mil? O anarquismo decerto se desenvolve, como todas as epidemias, por ter achado em tomo uma atmosfera propícia e mesmo simpática. A verdade é que toda a sociedade que eles desejam arrasar é tacitamente cúmplice dos anarquistas.

Esta cumplicidade, que mal percebemos, mas que é real e activa, tem dois motivos: um extremamente nobre e honroso, que é a nossa filantropia, a nossa crescente piedade pelos que sofrem, e outro, extremamente baixo e vergonhoso, que é o nosso doentio entusiasmo por tudo quanto é extravagante, monstruoso, histérico, fora da calma razão e do equilíbrio da vida. No anarquista nós vemos dois homens, com quem secretamente e sinceramente simpatizamos: um é o desgraçado, que padeceu frio e fome; outro é o alucinado, que se ergue da sombra, com a sua bomba na mão, para fazer de todo este mundo, de todas as suas glórias e de todas as suas riquezas, um montão de negros destroços sem forma e sem nome! E tão pervertidos estamos que eu não sei real-mente por qual deste dois homens nos interessamos mais –se por aquele que sensibiliza o nosso coração, se por aquele que excita a nossa imaginação. Francamente, qual nos emociona mais – o infeliz ou o monstro? Desconfio que é o monstro.

Em todo o caso, nós estamos tacitamente, pelo coração e pela imaginação, em simpatia com o anarquista. E quase se pode dizer que, exceptuando a porção mais egoísta e espessa da burguesia, e alguns homens de Estado a quem por profissão são vedadas a sensibilidade e a fantasia, todas as classes mundanas, intelectuais, artísticas, ociosas, se estão abandonando com voluptuosidade às emoções novas do anarquismo. Desde já existe, e muito contagioso, o diletantismo anarquista. Duquesas moças, cobertas de diamantes, condenam a má organização da sociedade, comendo codornizes trufadas em pratos de Sèvres. Nos cenáculos decadistas e simbolistas, a destruição das instituições pela dinamite aparece como uma catástrofe cheia de grandeza, de uma poesia áspera e rara, e quase necessária para que o século finde com originalidade. E nada caracteriza mais estes estados de espírito, onde alguma sinceridade se mistura a muita afectação, do que a frase já histórica do poeta Tailhade. Ao saber, em uma cervejaria literária, que Vaillant acabava de atirar a sua bomba na câmara dos deputados, este simbolista exclama languidamente e quase em êxtase:

– Já vai pois desabando o velho mundo!... O gesto de Vaillant é belo!

«O gesto é belo! «Todo Paris repetiu, com mal escondida admiração, esta frase que revelava aos profanos a beleza estética do crime anarquista. «O gesto é belo!» E muito honesto moço, incapaz de pisar voluntariamente o pé do seu semelhante, reconheceu, sentiu a beleza do gesto de Vaillant – a beleza daquele braço magro que se ergue lentamente, solenemente, e deixa cair a morte sobre um mundo condenado. Os anarquistas, eles próprios, já falam na beleza do seu gesto. Numa sociedade tão culta como a nossa, e tão saturada de arte, uma revolta social deveria necessariamente ter, além da justiça, a elegância plástica, a graça majestosa mesmo no seu furor. O anarquismo já se sentia justo. Os poetas mais entendidos em harmonia e ritmo acabam de lhe assegurar que ele é também esteticamente belo. Mas é sobretudo na imprensa que o anarquismo encontra um mais vivo estímulo ao seu desenvolvimento. Todos os jornais de Paris, quer sejam ferozmente hostis aos anarquistas, quer nutram por eles uma mal disfarçada benevolência, são unânimes num ponto – em os cercar da mais pródiga e ressoante celebridade. Um general vitorioso, um grande homem de Estado, um poeta como Hugo, um sábio como Pasteur, nunca tiveram na imprensa de Paris um reclamo tão minucioso como tem qualquer aprendiz de anarquista, que atire contra um velho muro uma bombazinha tímida.

Se é anarquista, se lançou a bomba – é dele a fama universal, que nem sempre conseguem os santos e os génios.

Mal se pode imaginar a que excessos se abandonou a reportagem de Paris a respeito de Vaillant. Os menores actos da sua vida, a gola de astracã do seu casaco, o seu modo de enrolar o cigarro, o que comeu, o que disse, o sobrolho que franziu – tudo foi miudamente e clamorosamente contado ao mundo com um calor em que a própria indignação tinha não sei quê de laudativa. De sorte que hoje em Paris, para se ter uma verdadeira celebridade, é melhor atirar uma bomba a qualquer corpo do Estado do que escrever a Lenda dos Séculos.

Assim fanaticamente convencido da justiça superior da sua ideia e tornado mais fanaticamente desesperado pelas brutais leis de excepção que contra ele decreta o Estado; cercado das simpatias dos humanitários; declarado esteticamente belo pelos poetas; apreciado como uma novidade picante pelo diletantismo mundano e magnificamente popularizado pela imprensa – como não há-de o anarquismo alastrar nessa proporção tenebrosa de um para mil?

Para que não crescesse, como planta bem regada, e ao contrário se estiolasse, seria necessário que ele próprio se persuadisse, se não já da falsidade da sua ideia, ao menos da inutilidade das suas práticas; que o Estado não suscitasse contra ele leis de excepção, odiosas e intoleráveis ao espírito de equidade; que os humanitários o reprovassem pela sua indiscriminada condenação de inocentes e culpados; que os poetas e os artistas descobrissem que o gesto é meramente bestial; que o diletantismo se desinteressasse dele como de um banal partido político; e que a imprensa o envolvesse em silêncio regelador.

Então sim! Talvez eliminadas estas condições que a favorecem, a febre que produz o anarquismo se calmasse, e o anarquista, restituído à saúde intelectual, reentrasse no largo e fecundo partido socialista, de que ele se separara em um momento de delírio.

Assim possa ser. As guerras servis (e o anarquismo é uma guerra servil) nunca conseguiram senão desenvolver nas classes opressoras os instintos de tirania e retardar funestamente a emancipação dos servos. Cada bomba anarquista, com efeito, só adia, e por muitos anos, a emancipação definitiva do trabalhador. Além disso, os anarquistas que ate agora têm lançado a bomba não são puros; têm todos no seu passado um crime, e um crime feio, de malfeitor. De sorte que não se sabe bem se a bomba é neles um primeiro acto de justiça, se um derradeiro acto de perversidade. Para que a bomba pudesse ter uma alta significação social, seria necessário que fosse lançada por um justo, ou por um santo. Até que surja esse santo para santificar o anarquismo, o melhor que se pode dizer dele, quando se não seja um capitalista apavorado e enfurecido pelo pavor – é que o anarquismo é uma epidemia moral e intelectual.

Ora, o dever da sociedade, perante uma epidemia, é circunscrevê-la, isolá-la – não criar em torno dela, por curiosidade depravada de um mal original e raro, uma vaga atmosfera de simpatia, de admirações literárias, de piedades estéticas e de delicioso terror que goza à novidade do seu arrepio.

Toda esta larga aragem de favor é um crime – porque, animando indirectamente a obra abominável do anarquismo, retarda directamente a obra útil do socialismo, e concorre para que se prolongue, mais revigorada pela reacção, esta ordem social, que é tão cheia de desordem.

Mas de mais falámos de bombas! Bem vos basta, caros colegas e amigos, as que aí vos caem em casa (e que decerto também não compreendeis bem), sem terdes ainda de vos preocupar, por dever crítico, daquelas que aqui estouram sobre o nosso Velho Mundo. Todas estas bombas, com efeito, são bem difíceis de explicar, de deslindar... Rebentam, matam, há mulheres que choram e a desordem social cresce. Todavia elas são arremessadas com convicção e por um amor ardente do bem público. Enfim, o que podemos afirmar sinceramente é que – cá e lá más bombas há.

 

Eça de Queiroz

 



06/02/2007
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